Clair Obscur: Expedition 33 é indie SIM

Edição: o texto e o título foram revisados e alterados.

A língua portuguesa é maravilhosa, principalmente quando quem escreve tem domínio sobre ela.

Já ouvi vários arranjos de palavras que, de tão bonitos, fizeram eu parar e me perguntar como aquilo era possível. Isso sem falar das tradições do repente e do cordel, que conseguem trazer qualquer tema colocando simetria nas palavras e nos versos.

Nossa língua tem, também, textos que a gente lê por horas, mas fazem parecer que só se passaram alguns minutos.

Por conta disso tudo e muito mais, não é incomum encontrar, em diferentes lugares do mundo, alguém dizendo que o português é o mais bonito dos idiomas. Mas essa beleza não vem sem custos e um deles é a grande quantidade de palavras que temos.

No caso das obras indies, ou, em português, independentes, cabe perguntar: independentes do quê?

Em inglês é fácil: indie é uma obra que não possui vínculo com uma publisher, termo que poderia ser traduzido como "publicadora", mas, fazendo isso, a questão dos indies continua bastante confusa para a maioria das pessoas.

É aí que entram as várias palavras do português: se alguém falar que um livro independente é aquele que o autor lança sem nenhuma editora ou, ainda, a banda indie não possui relação com nenhuma gravadora, esse assunto começa a ficar mais fácil de entender, apesar dessas situações não darem conta de todos os detalhes.

No mundo dos videogames, a palavra publisher não tem uma equivalente em português, como editora ou gravadora, apesar de desempenhar um papel semelhante. Sem opções melhores, que eu conheça, seguimos com o estrangeirismo, sem traduzir a palavra. 

Toda essa volta porque uma das grandes polêmicas neste fim de ano é se Clair Obscur: Expedition 33 é ou não um jogo indie, porque ele está concorrendo a várias categorias do The Game Awards, o Oscar dos games, e sendo classificado como independente em algumas delas.

O que, numa primeira análise, não faz muito sentido. Clair Obscur tem uma publisher, a Kepler Interactive, e o COO e produtor do estúdio desenvolvedor, François Meurisse, classificou o jogo como sendo AA, já que ele possuiu um orçamento bastante razoável e, apesar da equipe principal ter mais ou menos 33 pessoas, houve a contratação de diversos profissionais externos, somando ao total mais de 400 trabalhadores envolvidos.

Para continuar a discussão, então, uma pergunta tem que ser feita: o que realmente faz a gente poder classificar um jogo como sendo indie? Caso você queira se aprofundar no assunto, é possível encontrar várias respostas...

Em primeiro lugar, a resposta mais óbvia seria que o estúdio que desenvolveu o projeto não possui relacionamento com nenhuma publisher. Neste caso, os próprios desenvolvedores e pessoas envolvidas teriam que fazer tudo, além de criar, eles também teriam que levar o jogo para o público e divulgar seu trabalho como conseguirem.

Só que isso seria injusto com muitos estúdios que, por exemplo, acabam recorrendo a publishers menores, como a Dotemu, a Devolver, Team 17 ou foram abraçados por programas como o EA Originals, que foi criado pela Eletronic Arts para dar apoio, financiamento, publicação e marketing para jogos independentes de criadores que ela escolheu ser parceira.

Daí saíram títulos como Dread, The Talos Principle, Streets of Rage 4, It Takes Two e Split Fiction que, apesar de sua ligação com uma publisher, ainda podem ser classificados como indies.

Neste caso, apesar deles terem apoio da EA ou de qualquer outra empresa maior que os próprios estúdios, o caráter independente se mantém porque a publisher em questão não se envolve com o processo criativo e de desenvolvimento.

Se esta segunda definição puder ser levada em conta, isso quer dizer que Clair Obscur pode sim ser considerado um jogo indie e o assunto morre aqui.

Mas, se fosse fácil assim, o assunto não tinha virado polêmica e ganhado as redes neste final de 2025.

Também é possível usar métodos meramente quantitativos: dizer que um jogo é indie se seu orçamento está abaixo de um determinado valor ou que sua equipe é pequena, menor que uma quantidade arbitrária de pessoas.

E a definição, mais uma vez, passa por problemas: quem define o orçamento máximo para um jogo indie? Ou, no segundo caso, a partir de quantas pessoas trabalhando num jogo ele passa a não ser mais classificado como independente?

Enfim, cada um pode escolher o que faz mais sentido pra si mesmo e brigar na internet pra provar que está certo, o que gera bastante ruído nas redes. Eu, particularmente, acho engraçado quando vejo alguém escrever que um determinado jogo não é um indie de verdade ou que um título é mais indie que outro.

No final das contas, a menos que os organizadores do The Game Awards divulguem, nós nunca vamos saber quais parâmetros eles usaram para classificar Expedition 33 como indie e eu, sem nenhuma fonte e tirando essa ideia do bolso, acho que os jurados da mídia enviaram seus votos sem pensar no assunto. Em relação a isso, posso afirmar com 99,9% de certeza que minha especulação esteja errada.

Dito isso, ter um jogo batendo recordes de indicação na maior premiação de jogos do planeta é bom pra todo mundo: valoriza o evento, aumentando a audiência, e valoriza o jogo, atraindo um público novo. Dificilmente alguma coisa vai ser feita para "corrigir" essa classificação.

Pra mim, como não teve publisher se metendo no desenvolvimento de Expedition 33, este é um jogo indie sim.

E encerrando, eu acho que devo pedir desculpas pelo bait do título porque, no final das contas, não importa o que eu ou você achamos sobre o assunto, porque cada jogador, a comissão ou os jurados de cada evento acabam escolhendo parâmetros que melhor atendem sua visão de mundo e, assim, desse jeito, fica difícil dizer se um jogo é ou não indie.


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