PS4 e Xbox One são retrô
A GameStop, maior rede de lojas de games do mundo, passou a classificar os principais consoles de sétima geração, PlayStation 3 e Xbox 360, como retrô. Por que agora? E o que isso quer dizer? Como, raios, um vídeogame vira retrô?
Vamos conversar sobre isso.
Retrô é só a abreviação de RÉTROGRADE, que é uma palavra francesa que significa "retrógrado", "para trás", "em direção ao passado". O termo foi criado para se referir a expressões artísticas do presente, que na época era a década de 1960, que reinterpretavam movimentos ainda mais antigos.
Agora, nos anos 2020, retro aparece em retrogaming, já ganhou bastante força e é tema de uma infinidade de conteúdo sendo produzido na internet, que abraça colecionismo, histórias da época, vídeos de gameplay e o que mais o pessoal engajado nisso conseguir pensar.
Nessa questão de consumo, "retrô" passou a significar somente "antigo".
Pessoalmente, eu acredito que esse movimento em direção ao passado tenha como principal causa a maneira com que a indústria de games tem lidado com a fase do capitalismo que estamos.
Hoje não basta vender milhões de cópias, um jogo tem que gerar renda que cresce a cada trimestre e, além disso, as empresas parecem achar que a melhor ideia para aumentar os lucros é cortar custos, principalmente diminuindo pessoal.
Então, nas maiores do ramo temos visto onda de demissões atrás de onda de demissão, vários estúdios sendo fechados, mesmo que eles estejam em claro crescimento, fazendo jogos melhores e que estejam vendendo cada vez mais.
E quem sofre com isso é a qualidade dos produtos. Na atual geração, do PlayStation 5, dos Xbox Series e do Nintendo Switch 2, não existem tantos títulos assim que façam valer a pena comprar um console.
Mais uma vez, pra mim, quem decidiu parar no Switch Original, PS4 ou Xbox One ainda está melhor servido do que as pessoas que embarcaram na nona geração, a atual. Afinal de contas, não é só comprar o joguinho, tem o preço do aparelho também.
É interessante que, mesmo eu defendendo uma série de consoles que começaram a ser lançados em 2011, ainda posso parecer moderado quando comparado com uma galera que tem ganhado muito espaço: aqueles que defendem que gerações mais antigas, que vão de antes do Atari até o PlayStation 2, são melhores do que tudo que está sendo lançado hoje.
Uma época em que jogar parecia mais simples.
Pode ser que isso seja por saudade do passado, quando não havia preocupações, contas, responsabilidade e, depois de chegar em casa da escola, tudo o que se tinha pra fazer era almoçar e caçar diversão, sozinho ou com amigos.
Ou, ainda, nossas memórias estão nos pregando uma peça, porque, olhando para o passado, lembramos do que tinha de melhor.
Mas, não só isso, jogar era diferente, com as escolhas de design, limitadas pela tecnologia e modelos de negócio da época, deixando os jogos melhores de verdade.
Na real, não importa o motivo, mesmo que seja só nostalgia barata e mais nada, essas pessoas não estão erradas. Do jeito que estão as coisas, não tem problema querer dar uma fugidinha por dia para descansar a cabeça.
Só não dá pra viver sempre na ilusão, porque nunca existiram empresas boazinhas, todas sempre quiseram nosso dinheiro acima de qualquer outra coisa. Mas parece que, nos últimos anos, o design dos jogos perdeu a vergonha, quer sempre oferecer o mínimo possível pelo que pagamos e cobrar por partes dos games que antes simplesmente estavam lá.
Dito isso, minha primeira análise ao receber o anúncio da GameStop, que passou a classificar PlayStation 3 e Xbox 360 como consoles retrô, é que, agora, em 2026, já é possível explorar financeiramente as pessoas que jogaram esses dois consoles na suas infâncias e adolescências.
Eu poderia acabar o texto aqui com uma análise numérica simples, mostrando que esses videogames foram lançados em 2005 e 2006, então a galerinha que começou a jogar entre seis e dez anos já está perto dos trinta, a economia está muito ruim e o escapismo com coisas da infância está em alta.
Uma reflexão dessas até seria satisfatória, mas eu acho interessante explorar outras possibilidades, aspectos mais concretos do que, supostamente, uma loja se aproveitar da nostalgia para inflar o preço de jogos velhos que estão pegando poeira no estoque.
A GameStop não está errada em sua classificação, mas me parece que olhar esse assunto só de uma vertente econômica-mercadológica não conversa com o que eu tenho visto pela internet ou pensado a respeito.
Por exemplo, ainda partindo de um foco econômico, é possível olhar a situação a partir da logística: esses consoles já não são fabricados há uns bons anos, então é muito difícil conseguir exemplares novos, ou mesmo seus acessórios e peças de reposição originais e em bom estado. Fora isso, muito do hardware disponível está parando ou já não funciona mais.
Essas dificuldades tornam o PS3 e o Xbox One muito mais direcionados a colecionadores e saudosistas do que para novos consumidores, que sustentariam toda uma cadeia de produtos novos e peças de manutenção.
Já partindo para outro olhar, também é interessante fazer essa análise do ponto de vista tecnológico: podemos dizer que a mudança de vários aspectos de uma determinada geração para a seguinte serve de marca para definir o que, de fato, é retrô ou não.
Vídeogames com resolução nativa para tevês de tubo, mídias contendo o jogo completo, a não necessidade de instalação e incapacidade de receber patches colocaria o PlayStantion 2 e seus concorrentes de geração como os últimos consoles retrôs, já que a geração seguinte deu um salto tecnológico gigante e abandonou esse leque de características técnicas.
Todos essas limitações são extremamente válidas para criar uma classificação porque eles fazem muito sentido. Mas esses são os marcos que eu escolhi, pelas experiências que eu tive. Se outra pessoa decidir que outros avanços tecnológicos são mais importantes, como, por exemplo, o uso de DVDs, ela não estará errada.
No final, é cada um olhando para o assunto do jeito que se sente mais confortável. O critério tecnológico é tão válido quanto qualquer outro.
Se você não está satisfeito com todas as maneiras de classificar um videogame como retrô, dá pra pensar em outras ainda, como a idade do console: se pra você fizer sentido ser retrô todo aparelho de jogo depois que passarem 20 anos do seu lançamento, está tudo certo também.
Inclusive, parece coincidência que o lançamento do PS3 foi exatamente há 20 anos atrás e isso também pode ter sido levado em conta para a classificação da GameStop.
No final das contas, se você não quiser pensar e simplesmente dizer que retrô é o que a você jogava na infância, tudo bem. Essa é uma classificação subjetiva, abstrata e cada pode fazer ela do jeito que achar melhor.
Errado, errado mesmo, está quem fica brigando na internet e não joga.
E só pra não dizer que o título foi 100% click bait, se alguém quiser classificar como retrô qualquer geração anterior a vigente, essa pessoa pode fazer isso. A multidão da internet não vai concordar e eu acho que não existe muitos pontos para análise, mas quem sou eu pra julgar?!






Comentários
Postar um comentário