Voltando a lutar o Kombate Mortal
Pra começar, vou deixar claro dois pontos muito importantes pra mim: em primeiro lugar, o que eu escrevi aqui e os jogos de Mortal Kombat são recomendados somente para pessoas maiores de 18 anos; e, em segundo, este texto não é uma análise.
Apesar de ser mega fã de jogos de luta, ter gastado umas boas horas e alguns e ter ficado razoavelmente bom em menos deles ao longo da vida, eu só me divirto brincando. Não sei dizer o que faz Street Fighter 6 ser melhor do Mortal Kombat 1 e também nem me importo muito com isso. Então aqui não vai ter nenhuma reflexão profunda, só dar uma olhada no que fez eu me divertir tanto com Mortal Kombat X e 11 agora, em 2026.
Eles não estavam preparados.
Eu nasci em 1986, então posso dizer que vivi a febre dos jogos de luta dos anos 1990. Olhando para o passado com nostalgia, parece que esse período foi mágico pra galera que jogava, mas pra mim não foi tudo isso, porque eu pude participar dele muito menos do que gostaria.
Meu pai fazia de tudo para me afastar dos jogos de luta. Para evitar que eu virasse frequentador de fliperamas, em 1992, ele fez um sacrifício financeiro e comprou um Mega Drive usado de uma locadora pra eu jogar em casa e, daí, ele e minha mãe conseguiam controlar melhor o que eu consumia.
Restava jogar fliperama com o troco do pão, coisa que nunca aconteceu. Apesar da cidade que eu passei minha infância ser de médio porte, quando eu finalmente cheguei na idade de ir na padaria sozinho, não tinha nenhum fliperama numa distância caminhável da minha casa. As únicas máquinas de ficha que eu acabava tendo algum contato era no shopping, quando eu ia junto com a família, e era caro.
Na época, o dinheiro era sempre contado. Eu lembro da minha mãe passando em dois ou três supermercados diferentes marcando o preço do que a gente precisava pra, depois, na volta, comprar exatamente o que estava mais barato em cada um deles.
Então, quando a gente ia no shopping, se eu comprasse uma ficha pra jogar, não dava pra pegar um lanche ou comer qualquer outra coisa. Até o Plano Real concertar a economia e a nossa situação melhorar, era tudo bem difícil.
Mesmo assim, antes dos meus dez anos, eu lembro de ter jogado o fliperama de Street Fighter II umas duas ou três vezes. Mortal Kombat, então, foi menos.
Eu só lembro de ficar olhando a máquina da moda, na demonstração quando ela estava vazia ou torcendo pra ver um final quando alguém colocava uma ficha.
Nesse momento, com a economia ruim e as pessoas com ânsia de consumo, Mortal Kombat foi uma febre que passou por todo mundo, mas eu vivi muito pouco. O que eu mais lembro é como meus amigos jogavam nos consoles.
Meu melhor amiguinho da igreja, na época, tinha um Mega Drive também e era maluco por Mortal Kombat. Eu lembro dele levar uma revista com os golpes do primeiro e por todo o tempo que era pra gente prestar atenção na aula dominical, ele ficou tentando decorar as sequẽncias de comandos e a estratégia pra vencer o Shang Tsung.
Mortal Kombat (1993) para Mega Drive.
Depois, assim que saiu, ele comprou a fita do Ultimate Mortal Kombat 3 e praticamente viveu o jogo até dominar tudo, até aprender a fazer todas as finalizações e ver cada pixel que tinha no cartucho.
Teve mais gente que fez isso. Muito mais gente. Outro que acabou fazendo exatamente a mesma coisa foi o vizinho da minha rua, só que num Super NES.
O vizinho da rua de cima, que também tinha um Super NES, foi o primeiro a ter uma fita e chamava a gente pra jogar Mortal Kombat 2 na casa dele. Obviamente, todo mundo perdia pro dono do console. Não dava pra brincar e a gente só voltou lá pra apanhar mais algumas vezes.
No outro quarteirão, um dos meninos da turma tinha Mortal Kombat pro Master System. A galera jogava do jeito que conseguia e o importante era participar.
Ultimate Mortal Kombat 3 (1995) para Mega Drive.
No meu caso, meu pai fazia de tudo pra evitar que eu jogasse coisas com muita violência, mas não dava pra impedir o tempo todo. Na rua, eu curtia o que meus amigos tinham e dentro de casa Mortal Kombat nunca entrou.
Apesar disso, eu acho que a violência desse jogo mudou tanto o padrão que, por causa dele, eu acabei conseguindo aproveitar coisas um pouco mais leves, como Street Fighter, no meu próprio console.
Só que não conseguir jogar provavelmente fez eu me afastar da franquia de Liu Kang e companhia, talvez por não ter onde treinar e acabar só perdendo as partidas para as outras crianças. Mas isso não mudou a facinação com um jogo que parecia filme, pingava sangue e mostrava pedaços de corpos e esqueletos por todo canto.
O tempo passou, mas entre meus amigos, Mortal Kombat 1, 2 e 3 continuou a ser jogado até perto do ano 2000. Daí até 2003, de todo mundo que eu conhecia e frequentava a casa, só dois tinham um PlayStation 2, a maioria do pessoal tinha comprado um computador ou um PlayStation 1.
E, nesse cenário dos primeiros anos do lançamento do PlayStation 2, assim como praticamente todos os jogos, Mortal Kombat sofreu enquanto fazia a passagem do 2D para o 3D e, junto com isso, a violência extrema, que chocou e trouxe tantos jogadores no começo, perdeu sua capacidade de impacto depois de alguns anos sendo usada.
Prova disso é que Mortal Kombat 4, que saiu para PlayStation e Nintendo 64, vendeu 1 milhão e 281 mil cópias e, depois, os titúlos para PlayStation 2 até começaram com um certo fôlego, mas perderam vendas com o passar do tempo. Deadly Alliance (2002), vendeu 3,5 milhões, Deception (2004), 1,9 e Armagedon (2006), apenas 1 milhão de cópias.
Juntando esses dois aspectos, a violência e o sangue, que fizeram a franquia tão famosa, perdeu força saindo dos sprites, que foram feitas com fotografias de atores reais, e indo para os models 3D, que estavam longe de parecerem perfeitos com a tecnologia da época.
Mortal Kombat: Armageddon (2006) de PlayStation 2.
Colocar armas brancas e estilos de luta diferentes até foi uma ideia legal, mas acabou afastando Mortal Kombat de suas raízes. O resultado parecia uma tentativa de misturar Tekken com Soul Calibur, mas sem a qualidade de nenhum dos dois.
Durante a era do PlayStation 2, Mortal Kombat ficou fora dos meus círculos de amizade e dos lançamentos mais esperados dos sites e revistas que eu acompanhava. Estava claro que a série precisava urgentemente de uma nova direção, que veio na geração seguinte de videogames: em parceria com a Warner foi feito Mortal Kombat vs. DC Universe (2008), título que redefiniu os rumos de Raiden e companhia através do modo história.
Mas eles não usaram qualquer roteiro, para escrever a trama deste crossover, a Midway contratou os roteiristas Jimmy Palmiotti e Justin Gray da DC Comics. Na época, a dupla acumulava sucessos pelos quadrinhos de faroeste do Jonah Hex, assinando arcos marcantes como Face Full of Violence (2006), Guns of Vengeance (2007) e Origins (2007). Eles trabalharam em parceria com a equipe tradicional de Mortal Kombat, composta por Alexander Barrentine, Jon Greenberg e John Vogel. Vogel, inclusive, era um veterano da Midway e a figura central na construção de toda a mitologia da franquia de luta.
Mortal Kombat vs. DC Universe não só mostrou o caminho que levou até Mortal Kombat 11 (2019), que vendeu 15 milhões de cópias e se tornou o título de maior sucesso da franquia, como também gerou a serie spin-off Injustice, luta com heróis e vilões da DC, que rendeu 2 jogos e vendeu 6,7 milhões de cópias, se tornando a 56ª franquia licenciada para videogames com mais vendas.
Na minha opinião, esse novo caminho envolve 4 características principais do jogo: em primeiro lugar, ter uma boa jogabilidade, em segundo, poderzinhos legais e, em terceiro, a manutenção da violência extrema, que é a marca da franquia desde o começo.
Em relação à porradaria pura e simples, eu acho que a última grande inovação foram os golpes raio-x de Mortal Kombat (2011), que eu vou chamar de Mortal Kombat 9. Depois disso continuou até legal, mas não acredito que ninguém que já conhecesse a franquia tenha ficado impressionado com o que viu.
Golpe Raio-X em Mortal Kombat X (2015)
Pra acabar essa lista, o quarto, último e mais importante ponto parece ter sido a roteirização do modo história, bem novelesco, com a profundidade dramática de WWE, foco nas relações pessoais e atuações exageradas, que deixou tudo sensacional!
As interações entre os personagens são puro melodrama feitos somente para entreter. Esqueça o realismo. Só que, diferente do WWE, onde a conversa serve para elevar rivalidades que vão ser resolvidas no ringue, em Mortal Kombat eles tentam dar um significado maior pra tudo, porque as lutas decidem o destino da Terra.
É uma dinâmica que sacrifica o diálogo natural em nome do espetáculo, onde o que importa é tentar engajar o jogador, muito mais do que manter a lógica do roteiro.
Neste estilo, as traições e dispositivos de enredo são declarados sem nenhuma sutileza em partes anteriores da história e você sabe o que vai acontecer, só não sabe como.
Em Mortal Kombat X, Shinnok, um deus ancião caído, o vilão, é derrotado e selado por Johnny Cage logo no começo do modo história e a desculpa dada para que nosso herói consiga fazer isso é que ele seria de uma linhagem mediterrânea de guerreiros mágicos, mesmo sem saber. Ocorre um corte rápido para o presente e o jogo continua, mostrando o treinamento da filha dele com a Sonya Blade, a Cassie Cage, que é dublada pela Pitty, a princesa do rock brasileiro.
Cassie Cage, personagem filha de Luke Cage e Sonya Blade e Pitty, sua dubladora em Mortal Kombat X (2015).
Isso tem dois significados muito importantes: primeiramente, quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra e, em segundo lugar, no primeiro capítulo, o jogo já entrega qual vai ser a batalha final.
Depois, em Aftermath, expansão da história de Mortal Kombat 11, a galera se alia com Shang Tsung e Sindel, que foram vilões clássicos da franquia. Não só a traição deles já estava declarada, como os próprios personagens falam várias e várias vezes durante a história que estão preparados e esperando por isso.
Não sei se eu deixei claro, mas essa dramaticidade e previsibilidade são pontos fortes do jogo, que simplesmente fica divertido. Quando eu vou jogar Mortal Kombat eu não quero problemas existenciais ou realismo econômico, o negócio tem que ter um roteiro que convença mais ou menos e dê desculpa suficiente pra rolar porradaria. Só isso já está de bom tamanho.
E, apesar desse estilo narrativo ter me agradado, ele claramente tem dois aspectos negativos: o primeiro é que não vai agradar todo mundo, o que serve pra praticamente qualquer coisa, e o segundo é que é muito fácil de perder a mão, deixar a história completamente sem noção e, aparentemente, foi isso que fizeram em Mortal Kombat 1 (2023).
Fora isso, tem um detalhe que me deixou pensando: apesar da classificação 18 anos, o único conteúdo que justifica isso é a violência. Mortal Kombat quase não tem palavrão, a sensualização é limitada e não são abordados temas como uso de drogas ou bebidas. No máximo tem o Jax fumando charuto.
Depois disso deu vontade de pegar os jogos anteriores. Eu ainda não joguei Mortal Kombat vs. DC Universe nem Mortal Kombat 9. E é aqui que damos de cara com o maior problema que eu encontrei até agora: os jogos que foram lançados somente para a geração do PlayStation 3 e Xbox 360 não são mais vendidos em nenhuma loja digital devido a questões de licenciamento.
Para poder jogar esses títulos mais antigos, então, acredito que existam duas alternativas: comprar um console antigo e procurar pelas mídias físicas dele, provavelmente usadas, gastando alguma coisa próxima de mil reais; ou piratear no Windows, porque os emuladores ainda não conseguem rodar eles. Tenho a certeza que todo mundo vai escolher fazer a coisa certa!
E você, qual é a sua história com Mortal Kombat?
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